Recursos tecnológicos devem ser aliados no ensino, mas por si só, não educam. O papel do professor continua sendo fundamental
por LUÍS CELSO JR., Gazeta do Povo Online.

WilsonDias/ABr
Criança testa o laptop do programa Um Computador por Aluno, no Rio Grande do Sul
Criança testa o laptop do programa Um Computador por Aluno, no Rio Grande do Sul
Os primeiros computadores portáteis (laptops) do programa "Um Computador por Aluno (UCA)", do governo federal, foram distribuídos, na semana passada, em algumas escolas públicas do Rio Grande do Sul para a realização de um projeto-piloto. A idéia é testar o funcionamento das máquinas em sala de aula, no processo de Educação. Independente dos méritos da inclusão digital desses jovens, a grande questão que surge em debate é como cruzar Tecnologia e Educação.
"É uma questão de uso", afirma Marcos Meier, professor, psicopedagogo e diretor geral do Grupo Martinus, em Curitiba. Juntamente com a professora Sandra Garcia, mestra em Psicologia da Aprendizagem, Meier lançou o livro “Mediação da Aprendizagem – Contribuições de Feuerstein e de Vygotsky”, que trata da interação entre professor e aluno.
De acordo com o professor, a escola deve usar os recursos disponíveis de forma inteligente. Uma redação feita no papel e só digitada no computador não contribui em nada para essa interação. Já usar uma planilha de cálculos para que o aluno aprenda a fazer operações matemáticas, gerar gráficos e organizar conteúdos são atividades mais produtivas.
Sandra concorda. Não se deve lutar contra a tecnologia no processo de Educação. Isso seria restringir demasiadamente o potencial dos jovens, segundo a professora. É preciso preparar os estudantes com responsabilidade. "O professor e a escola precisam é estarem atentos. Estamos preparando o jovem para o mundo moderno. Estamos vivendo na era da informação", diz. Ainda segundo Sandra, deve-se desenvolver o protagonismo nos estudantes. "Tudo o que vem para acrescentar é visto com bons olhos, mas não pode parar só nisso. A tecnologia não pode ser apenas recurso de aproximação com os alunos. O importante é não perder o foco na Educação", completa.
Mesmo assim, a maior parte da utilização dada aos computadores pelas crianças e jovens é voltada ao lazer. Muitas vezes, em período de aula. O desafio, para Betina von Staa, coordenadora de pesquisa em Tecnologia Educacional da Positivo Informática, está em mostrar para o estudante o papel da tecnologia para a pesquisa e objetivos mais efetivos do que usar o computador como brinquedo. "Tanto o aluno quanto o professor devem ter consciência do objetivo, seja ele qual for", afirma Betina.
Professores
Mesmo com toda a tecnologia, o papel do professor aparece com destaque. Diferente do que já se pensou, a responsabilidade dessa função parece aumentar, e não diminuir, com a incorporação dos computadores na escola. "No entanto, infelizmente, muitos professores não estão preparados para fazer isso", afirma Meier.
Não se pode negar que há um descompasso entre professores e alunos no que se refere ao domínio da tecnologia. Para superar o "abismo tecnológico" o presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Educacional (ABT), João Roberto Moreira Alves, aponta três medidas: a modificação do sistema de formação de novos docentes, fazendo dos professores orientadores de aprendizagem; a requalificação dos atuais professores; e a instituição de políticas públicas para fornecer, a custo reduzido, equipamentos para os educadores. "Os professores estão se esforçando ao máximo mas existem as dificuldades técnicas e operacionais", conclui Alves.
Já para Betina von Staa, a questão não está no domínio da informática pura. O professor sempre soube ensinar, por diversos recursos. "Os professores sabem menos que o aluno. Realmente os jovens estão mais avançados nesse aspecto. Mas o professor tem muita contribuição a dar, principalmente orientando o trabalho com objetividade. Isso não é novo para o professor", afirma.
Materiais didáticos
Há também uma necessidade cada vez maior de materiais didáticos para os novos tempos. Não que o papel e a caneta estejam obsoletos, mas para jovens acostumados com linguagens novas, são necessárias adaptações. Para o professor de Filosofia da Unisinos, Carlos Cerne-Lima, autor do livro "Dialética para Principiantes" e do CD-Rom "Dialética para Todos", o grande empecilho é financeiro. "O problema da ligação entre Educação e alta tecnologia é extremamente fácil de resolver na teoria e muito difícil de resolver na prática, porque é caro", afirma.
Segundo o professor, muitos dos materiais que estão no mercado são compostos apenas de forma ilustrativa, e não interativa. Esse é um componente essencial para a Educação. "A criança começa a aprender jogando. Ela vai nas letras e monta a palavra. Essa habilidade é central para o aprendizado. Mas, depois de certa idade, não há mais interação. Recebemos tudo pronto pelos livros, televisão, etc.", explica
No entanto, não se pode esquecer de outras áreas, que não são propriamente tecnológicas, e que saem perdendo se o computador for o único centro das atenções. É o que alerta a pedagoga e professora Ana Schreieber, autora do livro "Musicalizando", no qual propõe interação entre música e movimento para crianças. "O equilíbrio é fundamental. É muito importante que os professores estejam por trás dos recursos. O papel do professor não é só dar matéria. Ele ensina em tudo, com atitudes e com exemplos", explica.